Tempo e Lembranças - www.marisavidigalartnaif.com
 

Na arte elaborada atualmente há um segmento que considero privilegiado. Nomeado em francês "art naïf", ele lida com a criação espontânea, aquela que emerge da memória do artista no desejo de resgatar e conservar algo como um paraíso – talvez já perdido, porém extremamente vivo ao ser apresentado nas telas.

Alfred Jarry (1873-1907) foi quem primeiro usou o termo art naïf para identificar a pintura ingênua de Henry Douanier Rousseau (1844-1910), artista admirado pela vanguarda da época, que incluía Picasso, Kandinsky e Matisse, entre outros. De lá para cá, aumentou a abrangência deste mundo paradisíaco que retém uma parcela da eternidade, de um tempo feliz que se preserva nas cores luminosas da arte naïve (1) – hoje intermediada por artistas como Marisa Vidigal.

Tratando de situações em que são envolvidos os registros da própria vida da pintora, das pessoas que a rodeavam ou rodeiam, de recordações situadas num nível muito mais emocional do que o da realidade, a artista pinta sua versão de tudo aquilo que já presenciou ou do que poeticamente vivencia nos dias de hoje. Misto de lembrança com o desejo de modificar – sempre para melhor – a realidade do presente ou do passado, a pintora naïve dá vazão à sua criatividade, compondo e idealizando cenas e personagens. Concebendo figuras e formas através da imaginação aliada às tintas e pincéis, a artista congela o tempo na obra. E ao unir, em si mesma, os papéis de demiurgo e de deus ex-máquina, que resolvem todos os conflitos humanos, a artista tem como resultado uma outra espécie do real – um mundo perfeito.

Por outro lado, a mesma intemporalidade que resgata um passado agradável ou que acomoda um presente incerto, acaba por inserir ambas as épocas na perenidade de uma linguagem artística específica – naïve – na qual não há modo de interferências ou sentidos diversos do que está ali exposto. A artista decreta então quase uma sentença que paralisa o tempo e o espaço numa marca individual, que impede leituras diferentes da que a autora lhe concedeu. Um casamento pintado na poética naïve é aquilo que está sendo apresentado. Não há margem para conceituações outras que não as explícitas na tela. Uma vez terminada a obra, o registro está ali – concretamente delimitado pelas dimensões do quadro – e perpetuado através das tintas e cores. Então, como se dá a fruição por parte de quem olha e admira a obra?
Cito acima duas palavras importantes – linguagem artística – e esta é a resposta. É a linguagem artística que possibilita ao fruidor o mergulho na obra e conseqüentemente o usufruir da arte. Este é o trabalho da artista – sua linguagem individual – que permite aos outros o prazer e o devaneio. Marisa é dessas artistas que compartilham com generosidade a atmosfera de suas criações. E digo mais, ela necessita pintar obsessivamente para mostrar estas recriações de sua vida, partilhando-as conosco. O seu universo colorido, aprazível, agradável, tem que ser dividido, nem que caiba só uma parcela a cada um de nós. Criadora de um mundo à parte, ela dá vida à fantasia que nos faz participar dos cenários na sensação de que a arte não termina ali, mas permanece em nós tal qual um encantamento.

Não é de admirar então, o grande número de apaixonados pela arte naïve que necessitam verdadeiramente de uma espécie de bálsamo proporcionado pela excelente pintura de Marisa. Isto também explica porque este tipo de arte escapa de modismos, enquanto continua mantendo representatividade na arte contemporânea.
Em primeiro lugar, sem a pretensão de inserir outros significados que não o simples – porém verdadeiro – registro, as pinturas da artista são lembranças que ela quer, a todo o custo, preservar. Pois bem, sua temática é a vida inserida em incontáveis capítulos da arte pictórica que, uma vez lá, não têm como possam ser adulterados ou eliminados. São seus motivos principais: os parentes, as festas natalinas e de igreja, as crianças, as brincadeiras infantis, casamentos, aniversários, costumes típicos, almoços de congraçamento – ocasiões em que os ressentimentos seriam esquecidos, as más recordações apagadas. Talvez também lhe traia a memória: as coisas não seriam exatamente assim tão rosadas; todavia sentimentos contraditórios seriam relevados, fatos desagradáveis seriam perdoados e todos purificados na lembrança, através das pinceladas extremamente sensíveis de Marisa.
Falando sobre a infância, recordo-me de Cecília Meireles:

"Paraíso perdido, esse reino da pureza é feito de pequenos nadas que amávamos entranhadamente; é feito de nossa própria substância, transmitida a outras coisas e a outros seres (...) Ou a força vital da infância é na verdade transfiguradora - pois, até entre os que não foram crianças felizes, são os dias de outrora, os primeiros tempos do mundo, que tomam, na paisagem do passado, os relevos mais perfeitos, e as cores mais belas." (2)

Lembranças – memórias que justificam a intemporalidade das cenas nesse mundo singular criado pela artista, onde há o silêncio do tempo atado à obra. Mundo lírico, poético, que se aproxima dos contos de fadas lidos quando criança.

Marisa é uma colorista de mão cheia, cuja pintura se apresenta límpida e clara, em um universo arrumado de modo cenográfico, no qual o uso da paleta de cores brilhantes acrescenta vida às telas. E a pintura seria, creio eu, a realização de uma necessidade vital da artista: organizar o mundo, dispondo-o em compartimentos singulares e únicos, tendo a fraternidade como maior atributo. A intenção é apresentar um refúgio ao mundo caótico, conturbado; por isso a ordem tem lugar especial em suas telas que, juntas, formam uma antologia de vida.

A pintora é uma mulher dinâmica que vive plenamente no presente – no entanto, ela guarda os seus momentos mais belos para as telas e é feliz quando pinta: isto transparece em suas obras. Comprometida com sua arte, Marisa se esquece do que a rodeia e mergulha na pintura a ponto de ser surpreendida com o correr das horas.

Em relação à iconografia, tudo é concebido sem a agitação dos dias atuais. Espelho sereno que reflete na pintura a paisagem de sua terra idealizada pelas cores, pelas casas dos parentes, flores, fazendas, a cultura de sua cidade natal e o destaque na igrejinha sempre presente.
Retratando "os bons velhos tempos", a objetividade distanciada a faz desenvolver uma composição pictórica harmoniosa, de aspecto minucioso e coloração inconfundível – a autoria é imediatamente reconhecida.

"A obra do naïf carrega toda a sua bagagem de vida, todo o seu pensar, toda a sua percepção do mundo exterior, interpretada, porém, com a mais profunda pureza do seu coração. Dizem que os naïfs pintam molhando os pincéis no coração, que ninguém aprende a ser naïf, ou ele nasce assim, ou não o será jamais. A arte naïf, com formas próprias e técnicas diversificadas, conduz o espectador a descobrir um mundo novo e diferente. Ao mesmo tempo que tão simples e direta, encanta pela força expressiva, pelos inúmeros detalhes, a singeleza dos traços, enfim, pela inigualável e única maneira de ser. Norteados por uma força ou necessidade interna instintiva, os naïfs relatam através de seus pincéis, o etéreo mundo dos sonhos e desejos, as lendas, os 'causos' e tradições populares (...) O que permanece relevante para os artistas naïfs, seres privilegiados, é o conteúdo interno do seu universo pessoal." como diz Jacqueline Angelo Finkelstein, Diretora do Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil - MIAN. (3)


Marisa Vidigal foi convidada recentemente pelo Presidente do Júri da Bienal de Sorocaba, Francis Dosne, que é Curador do Museu Guggenheim de New York, para participar da seleção da New Century Gallery, em Chelsea, Manhattan. Lá, a série "Brasil Brasileiro" da artista foi escolhida satisfazendo todos os critérios de originalidade, autenticidade e potencial de venda.
Agora, seu nome é destaque no convite da exposição "Bravo (from Botticelli to Vidigal)", com curadoria de Ana Maria Edmonds e do mesmo Francis, aberta no período entre 5 e 20 de janeiro de 2008.
Dominick Botticelli – descendente de Sandro Botticelli – trabalha com o surrealismo e sua obra remete à arte religiosa e simbolismo, além de influências da filosofia e da fantasia, esta última responsável pela parceria na exposição com Marisa.

Configurando o mundo à sua imaginação, Marisa Vidigal fundamenta sua arte, hoje presente nos Estados Unidos da América. Parabéns!



NILZA KNECHTEL PROCOPIAK

Filiada às ABCA/AICA – Associações Brasileira e Internacional
dos Críticos de Arte



(1) O termo "art naïf" é masculino, porém as regras gramaticais de gênero e número, em francês e em português, são semelhantes, variando de naïf - naïfs para o masculino a naïve - naïves para o feminino.

(2) Crônicas de educação 5 - Cecília Meireles. Planejamento editorial de Leodegário A. de Azevedo F°. Ed. Nova Fronteira. Fundação Biblioteca Nacional. RJ. Pg. 47.

3) Bienal Naïfs do Brasil / 2004. Liberdade na Expressão Criativa. SESC São Paulo. Livro da exposição. Pg. 10/11.

HOME - Marisa Vidigal
APRESENTAÇÃO - Marisa Vidigal
GALERIA - Marisa Vidigal
CURRÍCULO - Marisa Vidigal
REPORTAGENS - Marisa Vidigal
CONTATO - Marisa Vidigal
 
l site desenvolvido por Marcela Schulhan - marcelads@hotmail.com l